Flávio Bauraqui, um porteiro que abriu as portas do sucesso - RJ


Jornal Achei USA - 01/06/12: A Flávio Bauraqui se considera um autodidata. Ele tem a arte nas veias. O ator volta às telas na novela “Amor, Eterno Amor”, da Rede Globo, com o personagem Hamilton, além dos projetos musicais e cinematográficos. O ator conta, com exclusividade ao AcheiUSA, como foi sua trajetória profisisonal até o sucesso.

Flávio Bauraqui
Foto: Divulgação AcheiUSA
Flávio descobriu sua vocação em 1982, aos quinze anos, na escola: “Transformei uma história numa peça de teatro, onde tentei desfazer o estereótipo do negro como bandido, ladrão… Ganhei pontos na média, mas, além disso, formei atores e comecei minha carreira, como autodidata: escrevi, atuei como protagonista, dirigi, criei o cartaz… e, posteriormente, fui contratado pela escola como professor de artes cênicas”.

Antes disso, Bauraqui já mostrava seu gosto pelas artes dramáticas: “Fui criado pela família onde minha mãe trabalhava. Brincava muito sozinho. Pegava as roupas, colocava sobre alguma coisa e brincava de loja: eu era o vendedor, o cliente, o gerente, o caixa… fazia todos os personagens. Acho que naquela brincadeira inocente já comecei uma história como ator.”

Gaúcho de Santa Maria, seu sotaque sofreu muitas influências: “Estou totalmente sem identidade. É uma ‘mistureba’. Fiquei muito tempo na Bahia e acho que peguei um pouquinho do sotaque de lá.”

Ainda aos 15 anos, o ator formou o Grupo Improviso, até que, um dia, resolveu ir a Porto Alegre, para participar de um festival de teatro amador. As críticas foram muito positivas: “Definitivamente acreditei que poderia seguir a carreira”.
Em Porto Alegre, trabalhou numa fábrica e como contra-regra para um grupo teatral do Rio. Aí pensou: quem vai a Porto Alegre pode ir para o Rio e resolveu arriscar-se. Ele chegou, depois de 34 horas de viagem, com 10 reais no bolso e sem ter onde ficar. A irmã já trabalhava lá, como empregada doméstica para uma atriz.

Flávio morou clandestinamente num condomínio da Barra da Tijuca, enquanto buscava trabalho como ator na área: “Na época, parecia impossível. Eu já era ator, tinha registro, prêmios ganhos, mas não tinha dinheiro. Comecei a trabalhar como porteiro. Carregava todo o meu material comigo sempre e mostrava às pessoas. A pedidos, acabei contratado como professor de teatro do condomínio, que oferecia várias atividades aos moradores (judô, basquete…). Fiquei trabalhando como porteiro e professor de teatro! Depois disso, um dos moradores, Beto Silas, me deu o contato do diretor André Paes Leme, que precisava de atores negros para a peça ‘Forrobodó’.

Liguei e minha vida mudou. Além disso, a mãe de uma das minhas alunas me ofereceu a casa dela, se um dia eu precisasse. Como comecei a pedir licenças para ensaios e trabalhos de ator, o síndico acabou me mandando embora e, com isso, perdi o alojamento. No mesmo dia, me mudei para a casa da mãe da minha aluna. Fui dormir porteiro e acordei morador! E não parei mais de trabalhar como ator.”

Bauraqui também é cantor
Flávio é cantor também e já fez vários shows com outros artistas, como Fátima Guedes e viveu Cartola no teatro: “Fiquei em casa treinando a voz dele falada e cantada. Foi um divisor de águas na minha carreira, pois mostrou minha versatilidade. Fiz vários musicais.”

Depois de se firmar em outras áreas, Flávio chegou ao cinema com “Madame Satã”. O outro divisor de águas na carreira, segundo o artista, foi “Quase Dois Irmãos”: “Mostrou que eu poderia me desfazer da imagem do personagem do filme ‘Madame Satã’ e que eu não era um travesti. Fui fazer um bandido do Comando Vermelho, que me deu um prêmio de melhor ator”.

Flávio fez muito teatro, mas a grande maioria do público o conhece mesmo é da televisão, por seus papéis em novelas e séries. No momento, acaba de fazer o Tadeu na série “As Brasileiras” e é Hamilton, na novela “Amor, Eterno Amor”. Flávio também deve participar do longa metragem “O Bolo”, baseado no curta-metragem do mesmo nome, que venceu por voto popular o último Festival de Cinema Brasileiro, em Miami. E é o diretor Robert Guimarães que nos conta:

“O Bauraqui foi o único ator do filme ‘O Bolo’ que eu não conhecia pessoalmente. Nos encontramos na gravação e rolou uma coincidência incrível. O personagem Agnaldo é porteiro e, quando o Bauraqui chegou no Rio, ele trabalhou como porteiro. Não sabia disso e ele, ao colocar o uniforme azul, ficou emocionado e me contou. Começou ali uma amizade linda. O Bauraqui é um ator incrível, de uma vitalidade em cena impressionante que contrasta com ele, que é sereno. Chamo o Bauraqui de príncipe, pois ele é de uma elegância, de uma simplicidade e gentileza rara neste meio!... Com certeza iremos trabalhar juntos em breve na versão longa metragem de ‘O Bolo’ previsto para rodar em 2013.”

Flávio Bauraqui também prepara o projeto musical “Subsamba”, que vai dar uma nova roupagem a sambas antigos. “Eles podem se transformar até em guarânia”, provoca.

Por Tonia Elizabeth

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