Jornal Correio Braziliense-31/10: Os brasilienses sairão de casa hoje para escolher quem vai conduzir o futuro do Distrito Federal. Mais do que uma obrigação, eleger os governantes é um ato de cidadania com consequências boas ou ruins.
Afinal, dependerá do próximo chefe do Executivo — Agnelo Queiroz (PT) ou Weslian Roriz (PSC) — se os pacientes da rede pública de saúde terão um atendimento digno ou se o transporte público será pontual, com ônibus novos e limpos, só para citar dois temas que fazem parte da rotina de milhares de pessoas.
Mas os sentimentos que permeiam a política vão além da razão. Despertam paixões e podem até gerar mal-estar por conta de discussões acaloradas sobre quem é a melhor opção. Na última semana, o Correio entrevistou dois moradores do DF com convicções políticas opostas. Coincidentemente, dois paraibanos que deixaram a terra natal em 1973 para tentar uma vida melhor na capital da República. A aposentada Maria Dalia Lima de Andrade, 63 anos, é eleitora histórica do ex-governador Joaquim Roriz (PSC). Mesmo agora, quando quem disputa a eleição é a mulher dele, Maria Dalia só se refere a Roriz e, quando corrigida, se justifica: “Votar nela é a mesma coisa que votar nele”, afirma a moradora do Paranoá.
Em Ceilândia, o Correio entrevistou o vigilante José Ribamar Moura Vieira, 47 anos. Eleitor incondicional do PT desde a primeira vez que exerceu o direito de votar, ele enumera os feitos do presidente Lula e explicita as convicções políticas que, faz questão de dizer, são da família toda. Bandeiras e adesivos dos candidatos petistas estão grudados nas janelas e no portão da casa. “Tenho muita fé de que o Agnelo vai mudar o DF.”
As acusações mútuas feitas nos bastidores das duas campanhas não parecem abalar a crença desses eleitores em seus candidatos. Ambos acreditam tratar-se de armações políticas dos opositores.
Confiança e ideologia
Na primeira vez em que o paraibano José Ribamar Moura Vieira exerceu o direito de votar, ele escolheu candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT). “Tinha acabado de sair do Exército, me identificava com o PT e aquelas propostas me influenciaram pelo resto da vida”, recorda-se. Aos 47 anos, casado e pai de seis filhos, José Ribamar não esconde a paixão nem a convicção política. O capô do carro está coberto de adesivos da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, e de Agnelo Queiroz (PT), que disputa a vaga de governador do Distrito Federal. No portão de casa, ele hasteou uma bandeira e colou adesivos dos políticos em grades e janelas. “Aqui em casa, todo mundo é PT, graças a Deus”, diz, olhando para o céu.
Ao depositar o voto em Agnelo, José Ribamar, que trabalha como vigilante e está concluindo o ensino médio, espera que o médico-candidato cuide da saúde pública. “Eu tenho condição de pagar um plano de saúde. E quem não tem? Espero que o Agnelo não me decepcione. Se o governo dele der um jeito na saúde e cuidar da segurança para que os jovens não se envolvam com droga, ele será reeleito”, acredita, já contando com a vitória neste ano. Questionado sobre as críticas em relação às alianças do petista com aliados históricos de Roriz — como Tadeu Filippelli, Benício Tavares e Pedro Passos — , o vigilante dá um voto de confiança. “A Ficha Limpa e a Justiça não barraram essas pessoas, então, não tenho por que acreditar no que dizem (os adversários). Acho que é só veneno”, afirma.
O paraibano chegou a Brasília em 1973, aos 10 anos. O pai, que sempre trabalhou como autônomo, empregou-se num açougue até comprar o próprio negócio, mas não foi fácil se estabelecer. A primeira moradia, na invasão Iapi (Vila do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários) era precária. “Um compadre do meu pai nos abrigou na casa dele aqui em Ceilândia. Vivemos um bom tempo de favor. Era tanta gente debaixo do mesmo teto que um tinha que esperar o outro acordar para conseguir espaço para dormir. Não é para menos, somos nove irmãos”, conta.
Com o passar dos anos, a vida começou a melhorar. O pai de José Ribamar, Manoel Marcelino, inscreveu-se na antiga Secretaria de Habitação e Interesse Social (Shis) e ganhou uma casa do governo em Ceilândia, a mesma onde a família mora até hoje. “Isso aqui era só mato. As ruas não tinham asfalto, rede elétrica, de água ou esgoto”, lembra-se, olhando em volta apontando para o progresso. Manoel teve uma morte trágica e precoce. “Mas deixou a família toda encaminhada”, diz o vigilante que, para não deixar a mãe sozinha, construiu uma casa pequena no fundo do lote, na qual mora com a mulher e os dois filhos do segundo casamento, Lucas Matheus, 12 anos, e Polianna Bispo, 14.
Liberdade
Atualmente, a educação e o futuro dos filhos é o que mais preocupa José Ribamar. “Estão em uma fase muito difícil. Querem ter liberdade, mas, quando vejo a juventude se envolvendo com droga, roubo, tanta coisa errada, tenho medo que se percam por esse caminho”. A liberdade tão pedida, ele vai dando aos poucos e avisa aos meninos: “Se vocês me decepcionarem, será uma vez só”. Outra preocupação vai acabar em festa hoje, pelo menos no que depender da torcida dele e de toda família: “Eu quero é comemorar. Onde o Agnelo estiver comemorando a vitória, pode ter certeza de que estarei no meio do povo”.
Depois de 24 anos sem pisar em Campina Grande, sua terra natal, José Ribamar planeja voltar para rever os parentes. São 2.150km para matar a saudade de quem ficou e ver de perto as mudanças no sertão promovidas, segundo ele, pelo presidente Lula. “Ouço as histórias do povo de lá. E quando vou para a Bahia, onde minha mulher nasceu, vejo o tanto que os canais de irrigação e as cisternas levaram prosperidade. O povo do sertão tem criação e plantação. Sem água, a vida era uma tristeza só”, comenta. (AB)
Gratidão pelo lote
Da cidade natal, Itaporanga, no sertão da Paraíba, restam vagas lembranças. Mas do dia em que pisou em Brasília pela primeira vez nos idos de 1973, a aposentada Maria Dalia Lima de Andrade, 63 anos, não se esquece. “Fiquei decepcionada demais. Eu pensava: ‘meu Deus, que lugar feio, que lugar ruim é esse?’”. Se pudesse, Maria Dalia teria percorrido os 2.035km de volta na mesma semana em que chegou carregando os dois filhos pequenos para se encontrar com o marido Manoel da Silva, que trabalhava como carpinteiro na construção da nova capital desde 1958.
Em vez disso, Maria Dalia fez os olhos se acostumarem com a estranheza e a precariedade do novo lar. A família morava de favor, na casa de um e de outro, até que Manoel comprou uma chácara no fim do Núcleo Bandeirante. Ali, Maria Dalia teve mais cinco filhos — dos sete, apenas três vingaram. Na chácara, era ela quem plantava feijão, milho e mandioca. Carpia o chão e cuidada da casa e dos filhos. Foi preciso fazer mais e ela saiu em busca de trabalho para complementar a renda.
O primeiro emprego como doméstica foi em um apartamento na 411 Sul. “A mulher era desquitada e tinha dois filhos. Os meninos gostavam muito de mim, pois adoro criança. Tive os meus, cuido dos netos e dos filhos dos vizinhos”, diz. A lida nos primeiros anos de Brasília foi dura. Maria Dalia plantou grama nos jardins do Lago Sul. Aos poucos conquistou a confiança dos moradores e, novamente, conseguiu emprego como doméstica. “Era difícil. Ia de ônibus e tinha que deixar meus filhos na casa dos outros”, relembra.
A situação financeira não melhorou e Maria Dalia e o marido se viram obrigados a vender a chácara. A família se mudou para a invasão do Paranoá Velho, surgida logo acima da barragem do Lago Paranoá. Manoel montou um pequeno comércio, mas a insegurança era diária. “Tinha muito maloqueiro e o povo matava por qualquer coisa. Aí, veio o papai Roriz e deu um lote para nós”, relembra com um sorriso largo no rosto. Começava ali um história de admiração pelo homem que, ao todo, governou o DF por quatro mandatos.
Paredes azuis
A casa de cinco cômodos — pequenos, como frisa Maria Dalia — foi erguida aos poucos. O que entrava de dinheiro ia para a comida e para o material de construção. A varanda tem paredes de cor azul, coincidência ou não, a mesma de Roriz e, agora, de Weslian, que vai obter pelo menos 10 votos da família. Aliás, é ao ex-governador, que desistiu de concorrer após o Supremo Tribunal Federal não ter chegado a uma conclusão sobre a aplicação da Lei da Ficha Limpa, que Maria Dalia se refere o tempo todo. “Aqui, todo mundo é Roriz. Quem vier falar mal do Roriz não entra na minha casa, não toma nem uma xícara de café”, avisa.
A reportagem insiste que Roriz não é o candidato, mas, sim, a mulher dele. A resposta de Maria Dalia é imediata. “Votar na dona Weslian é a mesma coisa que votar para o Roriz”, acredita. Para a aposentada e a família dela, qualquer denúncia contra o político é armação de pessoas que querem tirá-lo da vida pública. “Essa história de bezerra de ouro, é tudo mentira. Ficam falando que o Roriz roubou. Não acredito em nada disso. E se ele roubou, foi para ajudar os pobres. Ajudar a comprar o leite e dar um teto para quem precisa”, diz.
Maria Dalia nunca pôde estudar. “Caneta de nordestino é enxada puxando capim”, justifica. “Mas sou muito inteligente, faço tudo o que preciso sozinha”, orgulha-se. Do alto dos seus 63 anos, diz ter aprendido que a maior riqueza de uma pessoa é ser honesto e manter as contas em dia. A mulher que recusou a viagem de avião ofertada por uma patroa rica por medo “daquele bichão despencar lá do alto” ainda sonha. Quer ver a esposa do seu candidato ser eleita governadora. Quer ver os filhos saírem do aluguel. E, política à parte, quer reencontrar a filha mais velha, que se casou e sumiu no mundo. A paraibana tornada brasiliense há mais de três décadas sente saudades.














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